Com 10,8 mil casos em 2026, chikungunya ultrapassa 50% do registrado na década em MS

Nos últimos dez anos, Mato Grosso do Sul registrou 21.282 casos de chikungunya, segundo a SES (Secretaria Estadual de Saúde). Em 2026, apenas nos primeiros quatro meses, o Estado já soma 10.855 casos prováveis. Assim, os números atuais já chegam a 51% do total registrado na década.

Além disso, 16 pessoas morreram de chikungunya em Mato Grosso do Sul neste ano. Outros dois óbitos são investigados pela SES. Entre 2016 e 2025, foram 24 mortes pela doença confirmadas laboratorialmente. Ou seja, os dados de 2026 representam 66,6% das mortes registradas na última década.

Desde 2015 até 2021, a circulação de chikungunya em Mato Grosso do Sul era considerada baixa. O número de casos variou entre nove e 271 neste período. Em 2022, foram registrados 596 casos. Em cada um dos dois anos seguintes, mais 2,7 mil pessoas adoeceram por chikungunya no Estado.

No ano passado, o número de casos explodiu em Mato Grosso do Sul, chegando a 14.148, com 17 mortes. Agora, os registros de chikungunya ultrapassam 2025 a cada semana. Mesmo com dados parciais, abril de 2026 já supera o mesmo mês de 2025 em 114%. O salto foi de 2,6 mil casos para 5,7 mil casos.

Por que aumentou?

A SES observa o aumento de casos desde 2023, quando houve epidemia de chikungunya no Paraguai. Segundo a pasta, foi assim que a circulação viral se intensificou na região de fronteira. Esta foi justamente a região onde a epidemia começou a se intensificar neste ano.

Segundo a pasta, o número de casos de chikungunya ficou tão alto, principalmente, em função da presença de pessoas que ainda não haviam tido contato com o vírus. A SES afirma que adota medidas permanentes de enfrentamento às arboviroses, com foco em prevenção ao mosquito Aedes aegypti.

Além das causas biológicas, questões sociais também impactam na maior circulação do vírus, principalmente em populações mais vulneráveis. No início do ano, as aldeias Jaguapiru e Bororó, na Reserva Indígena de Dourados, eram o epicentro da doença em Mato Grosso do Sul. Mais de 20 mil pessoas vivem no local.

Conforme a prefeitura, 2.475 casos de chikungunya foram confirmados entre indígenas, cerca de um quarto do total de Mato Grosso do Sul. Nove das 15 mortes registradas no Estado ocorrem entre indígenas.

A epidemia de chikungunya escancarou um problema antigo nas duas aldeias, as quais formam a maior reserva indígena do país. É comum encontrar caixas d’água abertas em quintais, já que não há água encanada. Além disso, ainda há muita gente que não tem informações suficientes sobre a transmissão da doença.

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Caixas nos quintais foram a solução que aldeias encontraram para não ficarem desabastecidas

Epicentro nacional da chikungunya

Mato Grosso do Sul lidera todos os números relacionados à chikungunya, em comparação com os outros estados do país, desde o início de 2026.

Com 371,5 casos por 100 mil habitantes, a incidência no Estado é quase 20 vezes maior que a média nacional, de 18,7. Mato Grosso do Sul lidera o ranking de incidência, seguido de Goiás (126,3), Minas Gerais (46,7), Rondônia (42,9), Mato Grosso (22,5), Tocantins (16,8) e Rio Grande do Norte (14,6).

Em todo o Brasil, são 23 mortes confirmadas, 16 apenas em Mato Grosso do Sul — ou seja, 69,5% das mortes estão concentradas no Estado.

As 16 mortes registradas neste ano estão distribuídas em quatro cidades de Mato Grosso do Sul. Dourados concentra a maior parte dos óbitos, com 10 registros, seguida por Bonito (3), Jardim (2) e Fátima do Sul (1). Segundo a SES, 76 dos 79 municípios registraram casos da doença.

No entanto, a SES-MS considera que esse é um “parâmetro importante para avaliar a intensidade de transmissão, especialmente no nível municipal, mas não é, de forma isolada, o único critério para caracterizar uma epidemia em nível estadual”.

A pasta lista cinco fatores decisivos para a definição do cenário de epidemia:

  • Aumento sustentado de casos em relação à série histórica;
  • Dispersão da doença entre os municípios;
  • Confirmação da circulação viral;
  • Impacto nos serviços de saúde;
  • Ocorrência de casos acima do esperado para determinado período e território.

Apenas nos sete dias entre 18 e 25 de abril, Mato Grosso do Sul registrou mais 1.295 casos prováveis de chikungunya. A alta foi de 17% em sete dias. Os números são os maiores da série histórica, com registro de circulação viral em quase todas as cidades.

 

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Dados são do Sinam (Sistema Oficial de Notificação de Agravos) da SES. (Reprodução)

SES nega epidemia em MS

A incidência de chikungunya em Mato Grosso do Sul chega a 351,1 casos por 100 mil habitantes. Em São Paulo, com relação à dengue, bastou que este número passasse de 300 — limite considerado “muito alto” — para que o estado declarasse emergência sanitária pela epidemia da doença.

Os critérios adotados seguem parâmetros nacionais e internacionais, especialmente os estabelecidos pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde, sempre considerando a realidade epidemiológica local”, conclui nota da SES-MS.

Chikungunya mata e causa sequelas

A doença é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti e causa dor incapacitante nas articulações, além de febre alta. A orientação principal é procurar um médico imediatamente no primeiro dia de sintomas, principalmente idosos e crianças.

“Ao menor início de febre e dor nas articulações de forma súbita, hoje, no nosso Estado, é chikungunya até que se prove o contrário”, afirma a presidente da Sociedade Sul-Mato-Grossense de Infectologia, médica Andyane Tetila, que atua no HU-UFGD (Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados).

Geralmente, o quadro de saúde do paciente com chikungunya começa com a febre entre 38°C e 40°C e dor muito forte nas articulações — popularmente chamadas de ‘juntas’. “O início é bastante súbito, a pessoa dorme bem, mas, no meio da noite, acorda com uma dor bastante importante nas articulações”, diz a infectologista.

Segundo o Ministério da Saúde, o vírus chikungunya também pode causar doença neuroinvasiva, que é caracterizada por agravos neurológicos, tais como: encefalite, mielite, meningoencefalite, síndrome de Guillain-Barré, síndrome cerebelar, paresias, paralisias e neuropatias.

Óbitos são recorrentes nos grupos de risco, compostos por pessoas em extremos de idade, como bebês e idosos. Além disso, mais de 50% das pessoas que contraem a doença seguem com os sintomas por anos.

A cidade de Itaporã foi a primeira do Estado a iniciar a vacinação contra a chikungunya. A aplicação começou no dia 18 de abril e, nesta fase, é destinada exclusivamente à população de 18 a 59 anos sem comorbidades. Em Dourados, a vacinação começou no dia 27 de abril e abrange as áreas indígenas e a zona urbana da cidade.

Em Mato Grosso do Sul, foram recebidas 20 mil doses, com total previsto para 46,5 mil. Dessas, 7 mil foram encaminhadas ao núcleo regional de Dourados. A distribuição ocorre de forma fracionada, conforme a capacidade de armazenamento da rede de frio, para garantir a conservação adequada dos imunizantes.

Entre o público que não pode receber o imunizante, estão gestantes, lactantes, pessoas imunossuprimidas ou em tratamento oncológico, transplantados recentes, pessoas com doenças autoimunes ou determinadas condições crônicas associadas, além de indivíduos com febre ou que tenham recebido recentemente outros tipos de vacina. As orientações seguem a bula aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Como me proteger?

Confira dicas práticas de prevenção, segundo o Ministério da Saúde:

  • Mantenha em dia a manutenção das piscinas;
  • Estique ao máximo as lonas usadas para cobrir objetos e evitar a formação de poças d’água;
  • Guarde garrafas, potes e vasos de cabeça para baixo;
  • Descarte garrafas PET e outras embalagens sem uso;
  • Coloque areia nos pratos de vasos de planta;
  • Guarde pneus em locais cobertos ou descarte-os em borracharias;
  • Amarre bem os sacos de lixo;
  • Mantenha a caixa d’água, os tonéis e outros reservatórios de água limpos e bem fechados;
  • Não acumule sucata e entulho;
  • Limpe bem as calhas de casa e as lajes;
  • Instale telas nos ralos e mantenha-os sempre limpos;
  • Limpe e seque as bandejas de ar-condicionado e geladeira;
  • Elimine a água acumulada nos reservatórios dos purificadores de água e das geladeiras.

 

 

 

 

 

ses/ms

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