A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais deste domingo (25) não se repetiu na formação dos governos estaduais. Embora tenha conquistado seu quarto mandato, o presidente encontrará um cenário político menos favorável a partir de janeiro de 2027, já que 16 dos 27 governadores eleitos declararam apoio a Flávio Bolsonaro (PL), adversário derrotado no segundo turno.
A nova composição representa uma redução da base de apoio que Lula tinha nos estados. Nas eleições de 2022, o petista contou com 11 governadores alinhados, distribuídos pelas regiões Norte, Nordeste e Sudeste. Quatro anos depois, perdeu espaço nessas três regiões e ficará sem aliados entre os governadores eleitos no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, incluindo Mato Grosso do Sul.
A mudança mais significativa no Sudeste ocorreu no Espírito Santo, onde Lorenzo Pazolini (Republicanos) venceu a disputa pelo governo estadual. O político declarou apoio a Flávio Bolsonaro durante a campanha e assumirá o comando do estado anteriormente governado por Renato Casagrande (PSB), aliado de Lula que foi eleito senador.
O resultado deixa o presidente sem o apoio direto de governadores na região mais populosa do país. A situação se repete no Centro-Oeste e no Sul, onde todos os eleitos para os governos estaduais manifestaram apoio ao candidato do PL.
Nordeste e Norte também registram mudanças
No Nordeste, Lula perdeu aliados em estados onde candidatos próximos ao seu grupo político foram derrotados. Em Alagoas, o ex-ministro dos Transportes Renan Filho (MDB) não conseguiu vencer João Henrique Caldas (PSDB), conhecido como JHC, que contou com o apoio do senador eleito Arthur Lira (PP).
No Maranhão, Orleans Brandão (MDB), sobrinho do governador Carlos Brandão (PSB), perdeu a eleição para Eduardo Braide (PSD), ex-prefeito de São Luís. Apesar das derrotas, tanto JHC quanto Braide mantiveram neutralidade na disputa presidencial, sem declarar apoio a Lula ou Flávio Bolsonaro.
A governadora Raquel Lyra (PSD), reeleita em Pernambuco, também optou por não apoiar publicamente nenhum dos candidatos à Presidência.
Entre os governadores que apoiaram Lula no Nordeste estão os petistas Elmano de Freitas, no Ceará, Jerônimo Rodrigues, na Bahia, Cadu de Lula, no Rio Grande do Norte, e Rafael Fonteles, no Piauí. O presidente também conta com o alinhamento de Fábio Mitidieri (PSD), em Sergipe, e Lucas Ribeiro (PP), na Paraíba.
Na região Norte, o cenário também mudou. Lula perdeu aliados no Pará, onde Dr. Daniel (Podemos) foi eleito governador, e no Amapá, que será comandado por Dr. Furlan (PSD). Em contrapartida, ganhou apoio no Amazonas com a vitória de Omar Aziz (PSD), que retorna ao Executivo estadual.
A distribuição dos governos estaduais revela, portanto, uma diferença entre o resultado da eleição presidencial e as alianças formadas nos estados, cenário que poderá influenciar a relação entre o Palácio do Planalto e os governadores nos próximos quatro anos.
Menos aliados podem dificultar negociações
O cientista político Cláudio Couto, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que a redução do número de governadores alinhados pode dificultar a execução de políticas públicas que dependem da participação conjunta da União e dos estados.
“Pode ter alguma interferência em políticas que requerem uma lógica de cooperação em algum nível entre o governo federal e os governos locais”, afirmou.
Segundo Couto, a influência dos governadores também se estende ao Congresso Nacional, já que eles costumam atuar junto às bancadas estaduais e aos parlamentares de seus partidos para defender interesses regionais.
“É claro que muito que venha ou não a ser decidido vai depender dessa articulação política”, explicou o professor, acrescentando que a redução da base estadual pode ter peso nas negociações políticas.
Uma das áreas diretamente afetadas por essa relação é a segurança pública. Atualmente, o Congresso discute uma proposta de emenda à Constituição (PEC) destinada a ampliar a participação da União no combate ao crime e integrar a atuação das forças de segurança federais, estaduais e municipais.
A cooperação entre os governos também é necessária em setores como saúde, educação e infraestrutura, especialmente na execução de programas e no financiamento de ações que envolvem diferentes esferas da administração pública.
Apesar disso, o cientista político Carlos Ranulfo considera que a falta de governadores aliados não representa, necessariamente, um obstáculo decisivo à governabilidade.
“A questão de governadores eu acho menos importante. Porque governador não quer dizer governabilidade. A Presidência não precisa de governador para governar o País”, avaliou.
Ranulfo argumenta que os próprios estados dependem da União para resolver questões financeiras e administrativas, como a renegociação de dívidas. Por isso, considera pouco provável que os governadores mantenham uma postura de oposição permanente ao governo federal.
“Acho pouco provável que façam oposição. Governo do Estado precisa do governo federal. Não me preocuparia muito com isso”, afirmou.
Dessa forma, embora Lula inicie o quarto mandato com uma base estadual menor, os efeitos dessa mudança dependerão da capacidade de negociação entre o governo federal e os novos governadores, especialmente nas áreas que exigem investimentos e decisões compartilhadas.
